A Transformação
Cheguei em casa com o sol ardendo, havia saído mais cedo naquele dia. Entro pela porta principal e encontro a casa revirada: cuecas por cima do abajur, peixes fora do aquário, cerveja dentro do forno, meu baseadinho apagado em um sabonete. Ai, que droga! O pior é que eu não lembrava minimamente o que acontecera na véspera. Essa noitadas ainda iriam me matar. Olhei para o relógio e ainda não eram 19 horas. Quer saber duma coisa? Eu vou arrumar essa bagunça em menos de 10 minutos. Sim, eu estava decidido: Iria arrumar aquela bagunça em apenas dez minutos. Acendi um crivo. Liguei a TV. Peguei o jornal. Endireitei os óculos. Tirei um tatu do nariz. Arrotei. Tomei um gole de cerveja. Sorvi o chimarrão. Passaram dez minutos, vinte minutos, 30 minutos, quer dizer, passou muito tempo, eu acho, e somente lembro de acordar à noite, não tenho a mínima noção se era logo após o entardecer ou alta madrugada, no meio de um descampado, sob uma chuva rigorosa. Olhei ao redor e não entendi porra nenhuma. Então caminhei. Caminhei. Caminhei. Cheguei novamente em casa. Entrei dessa vez pela porta dos fundos. A casa agora estava completamente organizada. Cada coisa em seu lugar. Foi espantoso. Nunca nenhuma casa onde morei fora parecida com aquela. Nunca! Normalmente, eu vivia entre bitucas de cigarro, garrafas vazias (algumas pela metade) de cerveja, calcinhas de algumas mulheres que eu mandava embora logo depois de gozar, enfim, bagaceirada total. Senti algo estranho quando vi meu mundo transformar-se daquela forma. Temi. Pois daquele dia em diante eu nunca mais sairia de casa, não conseguiria. Eu jamais deixaria de pensar no que havia acontecido, por anos a fio, aquilo repetindo-se em minha mente como um mantra nocivo. E isto era apenas o começo, talvez por ser um cagalhão eu já me quedava em desespero com algo tão insignificante. Ah, se eu soubesse o que viria depois. Como? Como? Como era possível que acontecesse algo terrível e inexplicável na vida de uma pessoa naquela magnitude que ocorrera comigo? Como? Ah, mas eu sou um merda mesmo, ainda nem havia acontecido o mais grave. Eu só queria respostas. Apenas respostas. Num dia de dezembro chegou a resposta. Numa tarde chuvosa chegou em minha casa um homem com uma bela capa de chuva. Aparentemente o homem parecia ser conhecido meu, mas não consegui reconhecê-lo imediatamente. Entregou-me um envelope amarelo, bonito, e que, estranhamente, também parecia-me familiar. Abri cuidadosamente e retirei a pequena folha branca que estava lá dentro. Lá dizia. "Sinto muito, meu amigo, mas tenho que lhe confessar algo. No dia em tu foste retirado do teu lar e acordaste no meio do mato, algo muito sério aconteceu. Descobrimos que tu és um bom homem. Descobrimos. No entanto, além de bom, tu és um fraco. Não podemos aceitar isso. Jamais toleraremos homens bons, porém fracos, em nosso meio. Sobretudo pela missão que te foi designada neste plano. Vá até o espelho. Algo mais condizente contigo te aguarda." Eu cada vez entendia menos o que estava acontecendo e a essa altura minha cabeça já estava explodindo, assim como meu estômago parecia estar se auto-devorando. Obedeci a merda da carta, pois não me restava escolha, algumas noites atrás eu estava aqui tomando uma ceva e organizando as coisas e agora estava de volta com a casa toda arrumada e nenhuma ceva na geladeira pra tomar. Percorri o corredor úmido e fedorento que levava ao único cômodo que possuía espelho na casa. Entrei e fechei a porta, não estava afim que aquele imbecil de capa de chuva me apunhalasse pelas costas, e, caralho, eu ainda não conseguira me lembrar de onde conhecia o tipo. O fedor na sala escura e pouco arejada estava insuportável, comecei a vomitar instantaneamente. Fiquei ajoelhado diante do espelho acho que por uns 3 minutos até conseguir recompor-me um pouco. O fedor persistia, mas com menos intensidade agora, provavelmente minhas narinas já haviam se habituado. Eu já havia me habituado a cada coisa na vida, não seria um mísero fedorzinho que me derrotaria. Finalmente, consegui ficar de pé novamente e olhar pra bosta do espelho. Que merda, afinal o que eu estava fazendo, obedecendo uma porra duma carta que fora entregue por um cara de capa de chuva e que eu não conseguia lembrar de onde conhecia. Senti minha face corar de vergonha, que ser estúpido afinal eu era? Eu precisava acabar logo com essa merda, me posicionei em frente ao espelho e olhei. Vi o nada. Vi o escuro absoluto. Nada mais faltava acontecer na minha vida. Lembrei-me de uma pequena janela que pelos meus cálculos deveria estar situada à minha esquerda. Saí tateando as paredes até que a encontrei, havia uma cortina, puxei-a com força, a luz de um poste que ficava na esquina invadiu a pequena sala e refletiu no espelho. Voltei-me em direção a ele e olhei para meu rosto refletido. Desta vez conseguiria decifrar o mistério. Horror! Terror! Pânico! Cravei as unhas em meu rosto e arranquei praticamente toda a pele que ficava entre os olhos e o queixo. Urrei como uma besta pavorosa. A porta escancarou e quebrou-se inteira na parede com um golpe do cara da capa de chuva, ah, meu deus, ele... agora me lembrava... ele tinha a minha cara! É, simplesmente indescritível a sensação de se ver alguém com a sua cara! Olhei novamente para o espelho enquanto meu clone gargalhava e fitei mais uma vez meu rosto agora descarnado. Eu me transformara em Luiz Inácio Lula da Silva.
Escrito por escriba às 16h07
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Tarde de Domingo (cerveja, cadáveres, café...)
Olhei ao redor e senti o mundo girar. As cervejas que eu tinha tomado começavam a fazer efeito. Era gozado, nos últimos meses eu passava os dias inteirinhos bebendo sem sentir sequer uma tonturinha. Lá pelas seis da tarde parece que todas elas resolviam fazer efeito ao mesmo tempo. Gozado, tempos estranhos. Resolvi dar uma volta pela praça e chegar num café. Lá estavam Dirty Harry e Paul Kersey tomando um cafezinho na mesa seis. Sentei bem atrás deles e fiquei ouvindo o que conversavam. Falavam sobre armas e as diferentes expressões que os homens tinham ao morrer. Dirty falou que certa vez ao matar um homem de origem latina os olhos do cara tinham saltado pra fora em torno de cinco centímetros e depois ricocheteado de volta para dentro das cavidades oculares. Kersey lembrou de uma vez que matou uma prostituta que tentava acertá-lo com uma navalha. Segundo ele ao acertar um balázio bem entre os olhos da piranha sua menstruação descera toda, formando uma poça de sangue fedorento em torno do corpo. Interessante acompanhar a conversa desses dois matadores sangue frio. Eles falavam de cadáveres e tripas escorrendo como se falassem de uma luta de boxe ou uma rinha de galos. Eles tinham o distanciamento necessário a quem exerce uma profissão. Invejei terrivelmente os dois. Como escritor dificilmente eu conseguia manter-me afastado, passionalmente falando, dos temas que eu tratava. Muitas vezes, como no caso de uma baranga que eu havia comido, eu sentia uma necessidade louca de destruir com palavras aqueles que me faziam sofrer - e aqueles que me faziam sorrir – já que eu não poderia destruí-los de fato, sob o risco de ver o sol nascer quadrado eternamente. A destruição interminável, que acabava e reiniciava no segundo seguinte, era uma constante na minha vida. Assim como as cervejas que eu tomava e não faziam efeito, parecendo esperarem estarem todas unidas e fortes para me derrubarem no final da tarde. Mas elas nunca conseguiam. Era só dar uma chegada no café e ouvir Dirty Harry e Paul Kersey conversando. Ao longe, Clint Eastwood e Charles Bronson vinham de mãos dadas. Passaram em frente ao café e saíram fora do meu campo de visão, com suas sombras se estendendo para além do infinito, naquele fim de tarde onírico e agradável. A tontura já estava passando. Era hora de pedir mais uma cerveja gelada.
Escrito por escriba às 16h05
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Medo
Não era por nada não, mas resolvi verificar mais uma vez se a porta realmente estava trancada.
Viu? Não estava! Se houvesse ido deitar-me passaria uma noite inteira, uma noite inteirinha, com a porta aberta! Eu estaria completamente à mercê de qualquer maldade que por ventura quisessem perpetrar-me naquela noite.
Fiquei ainda alguns segundos olhando friamente para a porta como se ela fosse a única responsável em ter ficado destrancada. Automaticamente enfiei-lhe a chave através da fechadura e rapidamente girei duas vezes para à esquerda a tosca e desgastada chave que tinha um péssimo aspecto acinzentado.
Enfim eu poderia deitar-me tranquilamente.
Ah! Antes esse pequeno acontecimento doméstico fosse o que de pior estava para acontecer-me. Muitas outras esquisitices incômodas estavam por vir.
Logo que deitei a cabeça em meu travesseiro espesso e cheirando a mofo percebi com meu nariz minúsculo, todavia muito sensível, um leve odor de cigarro. Por Deus, como odiei aquilo! Teria de levantar-me correndo pois alguém havia esquecido um cigarro aceso em algum cinzeiro da casa.
Logo localizei o pequeno foco de perigo para minha integridade física. A quase imperceptível luminosidade alaranjada de uma brasa de cigarro o fez surgir branco, curto e cilíndrico em meu campo de visão, como se fosse o mais potente dos holofotes em uma noite escura de inverno.
Rapidamente eu o peguei e corri até o banheiro mais próximo para apagá-lo sob a torneira. Aquela simples e fumegante guimba de cigarro poderia causar um vultoso incêndio. Deus do céu! Queimar até morrer, morte arrepiante ao mínimo vislumbrar de sua possibilidade.
Aliviado, pude retornar ao meu leito, no entanto ainda estava por começar o pior.
Logo adormeci, pois esses dois últimos sobressaltos fadigaram-me de tal maneira que dormi profundamente, porém de forma pouco tranquila.
Após dormir é que os verdadeiros suplícios começaram. Sonhos confusos e pavorosos permearam durante várias horas meu sono.
Sonhei que um homem havia entrado na casa e ficava olhando-me através da porta entreaberta. Seus olhos destacavam-se na escuridão e na mão ele portava uma reluzente faca; ele iria atingir-me assim que eu adormecesse.
Sonhei que estando eu a mergulhar em uma lagoa, de repente avisto um cadáver putrefato com um doce sorriso nos lábios, flutuando vagarosamente sobre as águas em minha direção. E, Deus!, ele tinha a expressão verdadeiramente parecida com meu rosto! Ah! Quanto sofrimento boiar assim, sorrindo eternamente em um lago gelado. Como poderia ele sorrir após morrer afogado?
Sonhei que a humanidade toda voltara-se contra mim elegendo-me o anticristo. Pretendia-se eliminar-me fisicamente da maneira mais dolorosa jamais imaginada.
E tantos mais outros pesadelos atordoantes que não cabe relatar, pois não teria força o suficiente para reviver aquelas imagens e sensações.
Ao final de aproximadamente três horas de sono e sonhos perturbadores despertei entre lençóis embolados e empapados em suor.
Então um ruído vindo de alguma peça mais afastada de meu quarto intrigou-me e fez minha espinha vibrar.
Era o ruído de uma máquina.
Calcei instintivamente os chinelos, sempre temendo pisar em alguma aranha venenosa, que com seu veneno paralisante faria-me agonizar durante horas sofrendo as mais lancinantes dores que ser humano algum poderia suportar.
Espichei o ouvido tentando localizar a origem daquele som fantasmagórico e terrificante que riscava a madrugada, estremecia meu cérebro e deixava-me a ponto de defecar torrencialmente nas calças.
Corri em direção à garagem. Sim! O som vinha de lá! Ah, ah, ah! Nunca poderia ninguém fazer-me mal. Eu era muito mais tenaz que eles. Eu colocava sempre –sempre! – todos aqueles que eventualmente planejassem minha aniquilação física, moral, existencial, espiritual, filosófica dentro do meu pequeno bolso! Eu sempre fui melhor que eles.
Adentrei correndo pela porta interna que levava à garagem e lá, para minha desgraçada surpresa encontrei dois homens jovens tentando roubar meu carro. Eles aperceberam-se de minha presença logo entrei no local, então mais rápido que eles apoderei-me de um pesado bastão metálico que se encontrava, justamente para esse tipo de situação, há anos escondido atrás da máquina de lavar roupas.
Gritei com os rapazes ordenando que saíssem do carro, que teimava em não pegar. Eles, com os olhos esbugalhados de medo, não esboçavam nenhuma reação, estavam paralisados.
Não sei como, mas um terceiro integrante do bando de jovens meliantes surgiu às minhas costas e rendeu-me com uma arma.
Eles não sabiam o que fazer comigo; eu vira o rosto de todos os três e no mínimo dois deles eram-me muito conhecidos. Eram garotos desajustados da vizinhança.
Colocaram-se a conferenciar e decidiram por minha morte.
Deixar-me vivo seria a condenação deles.
Entretanto não lhes bastava simplesmente ceifar minha vida.
Era noite de Sábado. Alguma diversão se fazia necessária. Minha repentina aparição fora providencial.
Naquela mesma garagem encontrava-se um gigantesco moedor de carne, remanescente de um antigo negócio de meu pai.
Os rapazinhos, muito excitados e com os olhos faiscando, penduraram-me pelos braços sob o moedor e o ligaram entre gargalhadas e bazófias. A simples visão das engrenagens se movimentando e desejando sangue e tripas, fez-me esquecer de tudo o mais. Minha consciência a respeito do mundo e de quem eu era não existia mais. O tempo não existia mais. Somente a dor existia. E, aparentemente, a cada milímetro que a corda escorregava, tornava-se sólida como rocha.
A corda era descida muito devagar pelos meninos. Meu corpo pendia sob a máquina assassina.
Meu corpo seria dilacerado por aquele túnel dentado.
Naquela noite, não sei dizer se morri.
Escrito por escriba às 16h03
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As Sutilezas
As sutilezas, meu amigo... as pequenas sutilezas... dizia ele pra mim entre uma dentada e outra naquele gorduroso sanduíche de queijo e salamito. Eu respondia que era uma pena tão pouca gente perceber essas pequenas sutilezas da vida e da literatura, como ele gostava tanto de frisar. Então ficávamos nós dois quedados no mais profundo silêncio, num vácuo de conversa que às vezes se prolongava por intermináveis e adoráveis minutos. Levantei e peguei outra coca-cola no balcão, não havia a coca normal, somente a versão light lemmon. Manda essa mesmo, falei, lembrando ao garçom que colocasse várias pedras de gelo no copo. Voltei à mesa e descobri que meu amigo fora ao banheiro, mal sentei ele retornou e conversamos animadamente por um bom tempo. Ao final de uns 60 minutos lembrei-me de que deveria partir logo pois havia firmado compromisso de comparecer a uma reunião na casa de meu irmão. Depois das tradicionais e intermináveis despedidas fui até o apartamento de meu irmão. Chegando lá me deparo com inúmeras pessoas, algumas conhecidas outras absolutamente estranhas para mim. Fui direto pra geladeira e peguei uma lata de ceva. Procurei, evidentemente, a que estivesse mais gelada, no entanto, estavam todas quentes. Aquele animal, mais uma vez (devia ser a centésima vez que ele incorria nesse erro) havia colocado as bebidas para gelar apenas a alguns instantes antes da minha chegada. Mas eu não estava afim de incomodar-me e não permiti que esse pequeno contratempo estragasse o resto da noite. Comecei a bebericar mesmo estando insuportavelmente quente a cerveja. Conversei com alguns estranhos e soube através de alguns outros, conhecidos, que se tratava de uma reunião muito importante. Meu irmão faria uma grande revelação. Fiquei sem entender mas logo esse fato deixou de ocupar minha mente e passei a admirar a beleza de uma guria que, recolhida a um canto escuro do apartamento, parecia estar com seus pensamentos muito longe dali. Olhei ao redor procurando meu irmão para questionar sobre a menina e como não o enxerguei tratei de me aproximar da pequena e fulgurante moçoila, que ainda não havia notado minha presença. Ofereci fogo ao perceber que ela sacava um maço de cigarros de dentro de sua minúscula bolsa. Sorridente, ela aceitou e agradeceu de maneira sincera minha solicitude e solidariedade tabagista. Como a menina não demonstrava o menor interesse em conversar comigo me afastei, alegando que necessitava dar um telefonema urgente. Caminhei até o outro lado do apartamento e me coloquei ao lado de um vaso do qual surgia uma enorme samambaia, verdejante e viçosa. Imaginei que estava sendo muito bem tratada e pensei que talvez nosso clima favorecesse seu pleno desenvolvimento. Nesse instante, no qual eu me encontrava perplexo diante da samambaia viva e alegre, meu irmão surgiu entre os convidados e solicitou a atenção de todos, gritando animadamente, gesticulando furiosamente, arregalando os olhos e soltando milhões de gotículas pela boca, que contra a luz, formavam uma espécie de arco-íris escatológico. Todos se postaram ao seu redor e devotaram a ele a máxima atenção e concentração. A ansiedade de todos era indisfarçável e pesava no ar, parecendo que a qualquer momento se cristalizaria no ar e cairia ao chão esfacelando-se em bilhões, trilhões de pequenos cacos, que poderiam entrar nos pés dos mais descuidados. Meu irmão, que era um homem extremamente bem sucedido e pragmático iniciou seu belo e duro discurso. Pediu aos convivas que olhassem para mim e logo após começou uma sessão de desconstrução de minha personalidade que faria Baudelaire parecer um mero aluno do Jardim, envolto em ingenuidade e inocência angelicais. Impassível aguentei até o final da preleção e após estar concluída indaguei meu velho irmão se eu poderia me retirar, agora que eu já era sabedor de seus verdadeiros sentimentos em relação a mim. Ele fez um pequeno gesto com a cabeça, quase imperceptível, mas que entendi prontamente. Eu já poderia ir embora. Dissera ele que eu era o maior vagabundo, bêbado e preguiçoso que ele jamais encontrara em toda a vida e por isso eu não poderia continuar a carregar o nome da família. Daquele momento em diante, oficialmente, eu não era mais um membro do clã dos Wittezorek. Poderia passar no setor de recursos humanos de alguma das empresas de meu irmão e pegar a indenização correspondente a esse pé-na-bunda fraternal. Retirei-me com a cabeça erguida, enquanto todos os convivas, inclusive a pequena guria a qual eu emprestei o fogo, davam sonoras gargalhadas e apontavam com seus dedos acusatórios para mim. Meu irmão, estando ao centro dos seus asseclas, olhava-me com o olhar mais pétreo que eu já vira estampado no rosto de um vivente e, com as mãos na cintura, não se movia e não demonstrava nenhuma emoção. Desci rapidamente os dois lances de escada que me separavam do meu mundo e, finalmente, chegando à rua, rumei novamente para o bar. Com grande alegria constatei que meu amigo ainda se encontrava lá, conversando com um bêbado e tentando mostrar ao borracho às pequenas sutilezas que lhe escapavam, em boa parte pela bebida, em generosa parte por sua deficitária, ignorante, insensível e preconceituosa condição humana. Sentei-me ao seu lado e pedi para o bêbado buscar um jornal para mim, em troca de mais uma dose de cachaça. Ficando a sós com meu grande amigo, esse sim, meu irmão verdadeiro no sentido mais amplo da palavra, relatei o ocorrido e disse-lhe que não me importava, apesar de todo o constrangimento, pelo contrário, achava melhor assim, agora eu estaria somente entre aqueles que realmente me compreendessem e fossem capazes de me dirigir outras palavras que não julgamentos, reprimendas, descomposturas e outras inconveniências sem limite, calcadas no ódio, na ignorância e na inveja. Ele me pediu então para ler um trecho de um livro que se encontrava aberto sobre a engordurada e sebosa mesa da birosca. Li o trecho recomendado por ele e fiquei sem entender, fugia completamente à minha parca capacidade de compreensão e análise. Confessei ruborizado minha ignorância, mas meu amigo, sempre paciente, disse-me que só os tolos compreendiam algo tendo tomado contato com o mistério apenas uma vez. Na realidade, eles julgavam compreender. Então, disse-me que eu deveria ler novamente e depois reler mais uma vez q quantas vezes fossem necessárias até que as cortinas se abrissem e revelassem o brilho oculto daquelas linhas. Essa seria apenas a segunda etapa: compreender a realidade na ficção, pois, segundo meu amigo, a ficção da realidade já era-me companheira há muito tempo.
Escrito por escriba às 19h58
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O Inimigo Natural
Quando eu tinha apenas dez anos de idade, em uma tarde de inverno em que uma fina chuva caía, eu tive uma revelação. Uma grande e importantíssima revelação.
É bom salientar que a chuva que caía apesar de muito esparsa prenunciava dias e mais dias de tempo cinza e melancólico. Era daquelas chuvas monótonas e desconcertantes que despertavam desejos estranhíssimos em algumas poucas pessoas. E estas pareciam selecionadas rigorosamente, devido ao talento nato, de ver muito além do que os olhos podem ver, que revelavam nos momentos de melancolia profunda.
Era gozado ouvir o som da chuva batendo na calçada enquanto as outras crianças brincavam entretidas, completamente distantes da perversa realidade, mergulhadas em um delírio onírico infantil.
Mas, voltemos ao tema gerador deste relato.
A chuva incomodava sobremaneira aqueles como eu que possuíam a capacidade natural de se irritar até mesmo com as mais frugais demonstrações de superioridade da natureza em relação ao homem. Sentia-me por diversas vezes como se estivesse absolutamente a mercê das vontades da senhora Natureza, como se esta pudesse controlar a mim e aos meus semelhantes como se fôssemos meros marionetes do mais vulgar dos teatros.
Essa sensação despertava em mim um ódio tão forte, um descontetamento tão arraigado em minha alma com as inexoráveis leis da física e da natureza que não me restava outra alternativa a não ser amaldiçoar toda e qualquer forma de vida, qualquer fenômeno natural, chegando ao ponto máximo da sobriedade (ou loucura?) de desejar que todos os seres fossem extintos, que o ambiente se transformasse no mais asséptico dos claustros e que eu, devido a minha inegável clarividência em relação a tudo isso, fosse alçado a condição de líder natural de um novo mundo e de uma nova humanidade.
Eu olhava aquela chuva maldita e me entregava totalmente aos pensamentos revolucionários sobre uma nova ordem natural e social que poderia conduzir a humanidade a conquistas nunca dantes sonhadas. A natureza era um empecilho para o homem e atravancava seu progresso, era dever de minha geração construir as bases, erguer os alicerces, da maneira mais sólida possível, que serviriam como lastro para o nascimento, desenvolvimento e plenitude de uma nova humanidade.
Enquanto aquela maldita chuva teimasse em continuar caindo nada eu poderia fazer. E isso só me deixava mais convicto de algo que deveria ser feito, sob a aterradora pena da humanidade viver perpetuamente sob a terrível sombra do desconhecido que, por critérios nem um pouco lógicos, absolutamente desconexos, sem relação alguma entre causa e efeito, condenava todos a determinar seus passos e ações de acordo com seus humores nem sempre favoráveis. O Homem é maior que a Natureza e deve, imediatamente, dominá-la de uma vez por todas. Eram esses os pensamentos que acometiam minha alma naquelas intermináveis tardes chuvosas e entediantes.
Ah, meus amigos! Como que quisera possuir o Dom de selecionar as espécies que mereceriam continuar existindo sobre a face da Terra! Eu poderia, muito mais sabiamente que Deus, encerrar com os tormentosos fenômenos naturais, como terremotos, erupções inúteis de vulcões assassinos e imprestáveis que colocam sempre nossa existência em xeque, como um intimidatório dedo acusador e inquisidor, eternamente a nos lembrar nossa frágil situação neste universo hostil e inquestionável.
O ódio em meu coração a essas alturas era de tal forma intenso que embriagava toda a minha alma numa pavorosa mescla de bílis e ácido, eu me perdia nos devaneios e chegava a ficar febril, tamanha era a reação que meu corpo demonstrava ao constatar a prisão na qual se encontrava.
E foi naquela tarde maçante e interminável que essa revelação foi-me feita, a partir somente, e tão-somente, de minhas observações pela janela da velha casa que eu habitava com minha família. Durante um tempo fiquei pasmado, num estado letárgico que lembrava o torpor proporcionado por alguma espécie de tóxico que deixava-me inerte, porém, extremamente sensível a tudo o que acontecia ao redor. Ouvia os passos das formigas, escutava as folhas das árvores chocando-se umas contra as outras e recebendo desprotegidas as minúsculas gotas da chuva. Eu sentia o perfume das rosas enchendo meu quarto, penetrando em cada espaço que houvesse. Longe, muito longe alguns pássaros incomodavam, com seus ruídos cretinos e inúteis.
Elegi naquela tarde comum o objetivo de minha vida. Eu viveria a partir daquele momento somente e obcecadamente para aniquilar o inimigo natural. Sim! O inimigo natural, que limitava, assassinava, coordenava, determinava cada passo de cada ser vivente sobre este planeta maldito. A humanidade, devido a minha incrível clarividência tornaria-se enfim livre. Libertaria-se completamente das opressões naturais, impostas por uma natureza impiedosa e cheia de defeitos. O Homem é racional, é matemático, é previsível... Não poderia continuar sob o jugo totalitário de forças imbecis que não acrescentam nada à sua existência e desenvolvimento. Pelo contrário: lhes tiram um pouco da grandeza de ser Homem. Aginal, nos bastam os minérios! E algumas formas de vida, maravilhosamente controladas e observadas, que serviriam para alimentação. O homem e os minérios! A parceria mais bem sucedida e perfeita de todo o universo. E hoje, tantos anos depois daquela tarde redentora, escrevo estas linhas. É claro que meus objetivos ainda não foram totalmente alcançados, isto nem seria possível em tão curta passagem pela Terra. Mas as bases foram construídas. Outros seguirão meu trabalho, da mesma forma que outros tantos já seguem. No final, o Homem, somente o Homem, existirá.
Escrito por escriba às 19h56
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Conversa Ouvida Atrás da Porta
Rússia, a terra das desgraças: saibam que na Rússia só acontece tragédia fudida mesmo! Tipo, teve Chernobil, teve o submarino que ficou lá no geladíssimo fundo do mar (putz, morrer preso num submarino deve ser muito foda,), teve aquela vez em que os terroristas invadiram um teatro e fizeram muitos reféns e culminou agora nas trapalhadas mortais e tradicionais das forças armadas russas e na ação absolutamente cruel e desumana dos terroristas chechenos que fuzilaram centenas de pessoas inclusive CRIANCINHAS! É!!! CRIANCINHAS. Acabaram-se todos os limites e daqui pra frente o terror tomará o lugar das guerras convencionais, não era isso que queriam, acabar com a corrida armamentista, afastar o perigo nuclear?, deixa, deixa só eles verem quando a al-qaeda tiver uma bombinha atômica, vão esperando. E claro, tudo vai começar lá. Os russos, meu deus, os russos... A sina maldita se manifesta novamente. E essas broncas todas que eu tava falando são muito recentes, aconteceram nos últimos 15, 20 anos, sei lá. Agora imaginem o que esse povo já passou, a loucura que sempre foi o desenrolar da história russa, terrores de outros tempos... Que povo desgraçado esse povo russo, que passou e passa por tantas agruras, despotismo dos czares, totalitarismo do estado com a revolução de 1917... que sina a desse povo!
Nesse momento em que Gilmar estava chegando ao clímax do seu inflamado discurso salientando um suposta sina do povo russo, passa um gaiato e diz jocosamente: Não gostou cara? Vai pros Esteites então. Lá é tão bom, porque afinal a democracia deles calcada no bipartidarismo não se parece nem de longe com as aberrações latrino-americanas e essa putaria do caralho que é o pluripartidarismo, mas esses abortícios todos nem vêm ao caso, o que importa é que lá você pode ser qualquer coisa, mas tem que saber seu lugar. Apenas isso, ser qualquer coisa mas saber seu lugar, muito simples, não? Negro no lugar de negro. Gay no lugar de gay. E dançarinas de strip tease e policiais que comem rosquinhas no lugar de dançarinas de strip tease e policiais que comem rosquinhas, obviamente. E ainda tem o lado de que tu pode ser fatiado por um serial killer, mas isso seria uma honra, uma tradição tão forte naquele lugar, poderia virar filme! Ou quem sabe ser servido num jantar para rechonchudos senhores do mercado financeiro “ O prato do dia hoje tem um quê de latinidade”. A América é uma terra livre, sejam livres vocês também. Ouçam a voz de um novo tempo dourado para a humanidade, nós estamos aqui. A sina é a lei. A lei é o comércio. O comércio é a religião. A religíão é o sexo... Eu poderia falar a noite inteira mas vou me abster... Eu vou chorar.
Mal pronunciou a última sílaba e uma rajada de metralhadoras liquidou o Gilmar e sua estrela e o gaiato engraçadinho e um sanduíche que trazia sob o braço direito. A ladainha havia passado do limite do suportável, morô? Dois pivetes, bem novinhos, mas com o semblante de velhos e de total resignação com a dureza da vida. Eram filósofos do tráfico, eram filhos do regime ditatorial mais atípico da história da humanidade; eram filhos das Capitanias, eram filhos das guerras e eles usavam toucas em pleno verão de 36 graus e tinham armas tão poderosas que fariam qualquer um quedar-se em prostração a si mesmo por julgar-se um semideus. Ó, como seria bom ter uma daquelas ali lá em casa, muitas pessoas pensavam nisso, assim como pensavam que deveriam trocar de celular, aliás elas nem pensavam, agiam como autômatos, e não tinham realmente muita culpa, pois elas SENTIAM pra caramba que PRECISAVAM trocar de celular. Era o fim da guerra fria. Era o fim das guerras. Era o início do Terror.
Escrito por escriba às 19h51
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